Tiro e Nó

Por Beatriz Kauduinski Cardoso *

Quando éramos pequenos, ajudávamos nos serviços caseiros e, algumas vezes, fazíamos as tarefas de qualquer jeito e correndo, para depois poder brincar. Quando alguma coisa era feita de forma “tapeada” minha avó dizia que não podíamos colocar a poeira para baixo do tapete.

É história contada na família o fato de que minha tia mais nova, que também era uma das encarregadas das tarefas domésticas e uma das “tapeadeiras”, colocava um vaso de flores sobre a mesa e encerrava a faxina, como demonstração de que tudo estava arrumado, entretanto, sempre tinha alguma coisa que deixava de fazer. Então minha avó brincava: “faxina de vocês é assim: por baixo é tiro e nó, por cima renda e filó”.

Lembro sempre disto quando vejo algumas situações semelhantes em nosso bairro.

Uma das mais graves acontece no Parque de Coqueiros onde um canal de esgoto a céu aberto foi fechado e escondido com gramas e plantas, mas o dejeto continua ali bem presente, correndo por baixo da grama verde e desaguando diretamente no mar. Nossos olhos não vêem mais, mas nosso olfato sente. Entendo que seria melhor deixar aberto para que todos vissem o que acontece ali e as condições de nosso saneamento!  Se ficasse visível aos olhos e não somente ao nariz, quem sabe teríamos mais pessoas e gestores públicos interessados em resolver este grave problema.

Esgoto Parque de Coqueiros
Foto: Viva Coqueiros

Outro exemplo acontece na Av. Almirante Tamandaré onde o Poder Público executou o fechamento de um canal no meio da avenida, com o fito de embelezar a avenida, principalmente para valorizar empreendimentos vizinhos que estavam em construção. Ninguém mais vê o canal por onde devia correr água limpa e, além disso, verificou-se falta de planejamento e distanciamento da comunidade. Foram colocados muitos bancos e mesas de jogo, que quase não são usados, pois ficam no meio de uma via de alto fluxo de veículos. Há alguns metros dali, no Parque de Coqueiros, estes bancos e mesas seriam bem melhor utilizados. Também na Rua João Roberto Sanford, apenas dois ou três bancos já atenderiam um anseio da população para resgatar um espaço público precioso.

Canteiro Central Avenida Almirante Tamandaré Coqueiros Florianopolis
Imagem: Beatriz Kauduinski Cardoso – outubro/2014
Avenida Almirante Tamandaré Coqueiros Florianópolis
Imagem: Beatriz Kauduinski Cardoso – outubro/2014

Para não ficar repetitiva vou lembrar apenas mais um exemplo de “poeira embaixo do tapete” perto de nós: para alavancar as vendas de um empreendimento no Bairro Abraão, uma construtora fez uma verdadeira maquiagem colocando algumas plantas e uma camada de tinta no muro de um conjunto habitacional popular, que não teve melhoria nenhuma em suas condições sociais, de saneamento e de habitação. O Parque Público prometido numa área próxima, até hoje não foi entregue. As melhorias públicas constituíram somente em aparência para não espantar os compradores do empreendimento de luxo.

Sei que faz parte da natureza humana gostar do belo e evitar o feio. Não queremos ver o lixo, o esgoto, o canal poluído que devia estar limpo, o conjunto habitacional com suas mazelas. Ficamos mais confortáveis quando não vemos o que tem embaixo do tapete, da grama verde, do banco no meio da via.

Mas aí somos tapeados!  Quem quer isto?

Que percebamos estas estratégias enganosas que não mostram a verdade e tem o propósito exclusivo de iludir as pessoas.

Que saibamos distinguir o que tem embaixo do tapete.

Que denunciemos quando o benefício é somente maquiagem.

Que não deixemos o tiro e o nó escondidos em nenhum lugar.

PS: Sinônimos de tapear: enganar, iludir , lograr, engodar, ludibriar,  seduzir ,  calotear.

Beatriz Kauduinski Cardoso
* Beatriz Kauduinski Cardoso, graduada em Ciências Contábeis pela UFSC, especialista em finanças pela FEPESE/UFSC, especialista em Gestão Urbana e Habitacional pela ÚNICA/ESAG, Mestre em Engenharia Civil pela UFSC na área de Gestão Urbana. Colaboradora da Caixa Econômica Federal desde 1989, com atuação na área de desenvolvimento urbano, especialmente em habitação. Vereadora suplente em Florianópolis, liderança comunitária do Continente e secretária da Associação de Moradores de Coqueiros. Escolheu Florianópolis para morar há 28 anos, casada, mãe de 2 filhas. Morou por 3 anos em Coqueiros no início dos anos 90 e há 10 anos voltou de  vez!  Acredita nas pessoas, que cada um tem algo para contribuir com o bem de todos. Acredita na força do gesto, da iniciativa, da doação sem interesse particular. Acredita num mundo melhor! Não desiste nunca!

Viva Coqueiros!

Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.

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