Quero meu mar de Coqueiros de volta.

Por Dalton Malucelli Jr. *

Quero a minha coqueiros de volta, as minhas praias, tenho esse direito.

Não quero mais só como pano de fundo, como cenário para fotos e contemplação. Quero poder mergulhar, nadar, pescar, velejar, desfrutar de um patrimônio que é meu, e que a irresponsabilidade de alguns moradores teima em poluir, a ganância de alguns empreendedores e comerciantes insiste em destruir e as autoridades fecham os olhos pois, pasmem, não dá voto.

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Quero poder mergulhar do trampolim da Praia da Saudade sem enterrar a cabeça na lama. Quero velejar pela baía sul sem o risco de ser contaminado por micoses. Quero nadar até as pedras de Itaguaçu, enxergando meus pés. Quero estar no Parque de Coqueiros e poder dar um mergulho, ali, nas águas que lambem suas areias. Estar nas Palmeiras à noite com água até pescoço, jogando conversa fora. No Abraão ir até sua ilha, empurrar mar adentro suas canoas de pesca. E no meu Bom Abrigo velejar, me esbaldar e até pescar o siri guelra azul e o goiá.

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Mas não me deixam. Tem aquela maldita placa cravada na areia, que diz “impróprio para banho”. Como explicar isso para amigos que vem de fora? Como explicar que moro a 50 m de praia, que tem um por do sol maravilhoso, e não posso sequer pisar nas suas águas? Como explicar que ele está na minha porta, mas que eu tenho que andar 25 km para tomar um banho de mar? Como explicar que a placa imprópria já está ali há mais de 30 anos? Sempre imprópria para banho e para o lugar que ocupa. Quem sabe, se continuar assim, tiremos ela de uma vez e coloquemos uma outra: “Aqui Jaz uma bela praia”, da qual fui me afastando e hoje não passo da calçada.

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Nós nos acostumamos com a sujeira, a manter essa distância, a não utilizá-lo, a não ser como estúdio de fotografia. Temos sistema de esgoto. Pagamos taxa de esgoto tanto quanto a taxa de água, e temos que ver líquidos fétidos jorrando em nossas areias de Coqueiros. Alegam os “entendidos” que por ser baia e outros bairros e municípios não possuírem rede de esgoto, a poluição se espalha. Isso é óbvio, estudei, entendo bem: as águas vem lá de São José, Palhoça, via encanamentos, e saem pelos tubos que dão escoamento pluvial na nossa praia. Estranho, não lembro de ter estudado estes estranhos caminhos. Me explique melhor essa mágica. Agora me diz: existe o sistema de esgoto, já vieram aqui em casa três vezes, e alegam as autoridades, estarem todos ligados. Como vira e mexe vejo esgoto saindo pela pluvial, como explicar o cheiro insuportável que exala das bocas de lobo? Explica aí Casan, se o sistema de esgoto e o pluvial são separados e estanques.

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Vamos aos jornais defender hotéis cinco estrelas, marinas, mega projetos que vão trazer turistas as nossas praias, mas para que? Para que fiquem tomando banho de piscina, qual é o louco que vai querer banhar-se em titicas? Briguem pelo básico, pelo alicerce, infraestrutura. Mas a placa diz Ilha da Magia: um caldeirão pútrido, onde asas de morcego, entranhas de urubu são delícias em relação ao conteúdo da poção chamada mar. Façamos as contas quantos quilômetros temos de acesso ao mar, contem o perímetro das baias e da ilha, quantos metros estão disponíveis ao banho? “Vais” cair duro. Vai descobrir que é a parte que dá ao mar aberto, e olha lá, isso quando o mar, enojado, não vomita em nossas areias as porcarias que nele jogamos.

E a placa continua lá, todo mês a cada nova leitura, novas amostras, impróprias, e nada se faz. Já ouvi sugestões de aterro de Coqueiros para fazer uma avenida à beira mar. Sério! Ouvi, e a pessoa não esboçou sorriso, nem sarcasmo, ela acreditava na ideia. Pois eu acho que ainda ouvirei que aterrem as baias para um grande estacionamento e assim não se gasta mais em pontes. É assim, terrenos e patrimônios são deixados abandonados e, quando ocupados por prédios suntuosos, soltam-se rojões de alegria. O mar também vai pelo mesmo caminho. Agora, se você quer mudar, nas próximas eleições lembre-se de perguntar ao político que lhe pede voto, ao prefeito que apresenta projetos futurísticos, quais são suas ideias concretas e compromissadas, em cartório, para a mais elementar das questões: o saneamento básico, o tal do esgoto.

Não quero tomar banho em Miami, nem na Grécia, muito menos em Marte. Quero meu mar de Coqueiros de volta. Minha Florianópolis inteira, não pela metade.

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Um grande abraço, obrigado, fiquem bem e vamos em frente.

Dalton Malucelli Jr.

* Dalton Heros Malucelli Jr 53 anos, morador do Bairro do Bom Abrigo desde 1970, com 7 anos de idade onde estou aqui, firme. Cursei Engenharia Agronômica, tive 15 anos de lojas de calçados e há uns 10 anos atuo na construção civil. Mas, pra falar a verdade, não estou muito interessado em mostrar meu currículo, me defino como cidadão florianopolitano, morador do Bairro de Coqueiros, em Florianópolis, mais especificamente na praia do Bom Abrigo. Sou um cidadão como outro qualquer, que busca cumprir seus deveres, mas exige seus direitos. Não sou e nem pretendo ser dono da verdade, mas o que escrevo é fruto das minhas experiências, e acredito que de muitos vizinhos já que viveram uma realidade comum. A grande questão está na maneira que cada um enxerga essa realidade, e a sua visão de solução é o que muitas vezes provoca discórdias, mas, acredito, se o objetivo for o bem comum, não existem barreiras. Portanto, não espero ser unanimidade, seria pretensão demais, mas criar a discussão, chamar a atenção para certos eventos, ser um elemento ativo na busca de soluções é dever do cidadão. Abraços a todos.

Viva Coqueiros! Por inteiro.

Florianópolis, Santa Catarina.

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4 comentários em “Quero meu mar de Coqueiros de volta.

  1. De acordo, Dalton.
    Medida radical? Lacrar as bocas de esgoto.
    Qdo as titicas começarem a bater nas bundas, daí começaremos a nos mexer.
    Porém, tenha sempre consciência que este é um problema cultural.
    As soluções não podem ser parciais. Há que ter um mega projeto, com diretrizes amplas e de ordenamento obrigatório. Devem envolver toda a região metropolitana denominada Grande Floripa (São José; Palhoça; Biguaçu; to Amaro da Imperatriz; Antonio Carlos; Águas Mornas; São Pedro de Alcântar; Governador Celso Ramos.)
    Casos semelhantes resolvidos no século retrasado: áreas metropolitanas de Paris e Londres.
    SÉCULO RETRASADO!!!!

  2. Muito BOA sua matéria sobre este RECLAME, eu também quero minha praia de volta…..
    Não caberia a gente (todos os moradores da região) passar a depositar, o valor referente a taxa de esgoto, em juízo e exigir do MP providências para que este valor seja aplicado nas ações necessárias a solução deste problema, afinal pagamos, um todo, por algo que recebemos pela metade, ou estou errada?

  3. Bom dia, Dalton! Parabéns pela forte matéria.
    Moro em canasvieiras há 12 anos e por aqui caminhamos, com passos largos, para a mesma situação de coqueiros. Na terça e quarta-feira passadas estive aí na sua região e, curiosamente, comentei com algumas pessoas sobre a triste degradação de uma das localidades mais bonitas de Florianópolis.
    Abraço.
    José Cajaíba

    1. Olá José,realmente dói fundo a gente ver o belo se tornando feio….
      Eu particularmente vendo estes abusos me tornei mais rude,mais impaciente e mais intolerante com tudo que diz respeito à infra estrutura,que como o próprio nome diz é básica em qualquer projeto e não é diferente numa cidade.
      Minha tolerância é zero com todos os porcalhões e com aqueles que insistem em tornar o meu mundo pior.
      Por isso as pessoas tem que ser mais duras em suas cobranças e em questões que realmente importam….o que vemos é “Reclama quando não deve e quando é para reclamar ..fica quieto”.
      Mas lembremos consciência e equilíbrio acima de tudo e olho vivo sempre, nunca se sentindo envergonhado ou constrangido por estar exigindo …é um direito nosso….envergonhado tem que ficar o zé lambão e o servidor público que não faz o trabalho que pagamos .. grande abraço, fique bem e tudo de bom sempre.

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